terça-feira, 10 de dezembro de 2013

CALE


Embora o céu estivesse coberto de nuvens, não havia sinais de que choveria em breve; no máximo poucas gotas de garoa se atreveriam a tocar o solo. Eu, porém, sabia que dentro de mim uma tempestade tomava minha mente e meu coração. Um turbilhão de diferentes pensamentos, grande parte deles contraditórios. Mas, havia uma missão, o respeito ao Credo; e havia também o que estava no meu coração. Aquilo doeria nela, e doeria também em mim.

Olhei novamente para o teatro. Era uma construção nova, imponente, porém com uma arquitetura remontando ao barroco. Isso facilitaria as coisas, de certa forma. Ironicamente, a peça encenada na abertura da casa seria renascentista. Um interessante conflito homem x Deus, sendo que, nesse caso, a casa divina abrigaria a representação do culto ao humanismo.

Percebi, de relance, que a construção impressionava também a outras pessoas, que paravam e se demoravam a observar o prédio. Alívio; não seria interessante chamar a atenção ali. Tirei o smartphone do bolso do casaco, olhei novamente a foto do meu alvo: não havia engano, como os dados abaixo da foto me confirmavam. Eu teria que abatê-lo.

Com um sorriso que era um misto de amargura e resignação, guardei-o no bolso da calça. Avancei pelas portas, onde entreguei meu ingresso. Apesar da presença de vários políticos, empresários, celebridades e outras figuras públicas, a segurança era irrisória. Certamente que um leigo acharia que o número de seguranças contratados era exagerado. Mas não havia detectores de metais, e em poucos minutos pude acreditar que os coitados eram totalmente incompetentes. Um ou dois chamaram minha atenção, embora eu realmente esperasse que não precisasse confrontar nenhum deles. Quanto menos sangue, melhor.

Dirigi-me rapidamente ao toilette, onde entrei em um dos reservados. Rapidamente conferi meus itens: granada de pulsos elétricos, granada de luz, pistola, silenciador. Sob o pulso do casaco, a arma-símbolo do Credo: com um pequeno movimento de pulso, ouvi o aço correr e o brilho inconfundível da lâmina oculta.

Ajeitei novamente minhas roupas e armas, de maneira a ocultar essas últimas, e dirigi-me ao meu lugar na plateia. Sinceramente não me lembro da peça... Sei que era algum discurso humanista com uma ou outra blasfêmia, mas nada que me prendesse a atenção. Ou prenderia, se não fosse o peso que vergava sobre meus ombros naquele dia. Restou-me a memória de um ator que cantava e declamava a plenos pulmões com a voz de um Pavarotti (não, não era ópera), e uma bela atriz, cujos olhos azuis brilhavam lindamente.

Claro que no momento nada disso era percebido por mim. Depois de alguns minutos de iniciada a peça, considerei que esta já chamava atenção suficiente para servir aos meus propósitos. Levantei-me e saí, não sem antes ter uma breve discussão com um senhor que se irritou por eu incomodá-lo. Assegurei-lhe que ficaria feliz em acertar as coisas de maneira mais primitiva se ele quisesse me acompanhar até o beco atrás do teatro. Como ele espantou-se e calou, considerei que ele deu o caso por encerrado.

Fiz como se fosse sair, mas, ao chegar próximo à bilheteria, entrei por uma estreita porta que dava para a sala da gerência. Vazia, pois o gerente estava empolgado com a casa cheia e em bajular os políticos ali presentes. Isso me facilitou muito meu trabalho: rapidamente identifiquei qual o camarote em que meu alvo estava, e saí rapidamente. Um segurança chegou a me ver, mas escondi-me atrás de um vaso. Quando passou, agarrei-o por trás, sufocando-o; ele ficaria inconsciente por algumas horas, e, quando acordasse, eu já estaria longe dali. Dessa forma, guardei o corpo em um lugar em que não chamaria a atenção. Olhei pra mim mesmo: eu definitivamente não queria derramar sangue naquela noite.

Entrei em outra sala que estava aberta, atravessei-a e abri a janela. O vento gelado da noite soprou-me o rosto. Olhei para a cidade: prédios iluminados, pessoas passeando pela rua, uma noite típica e tranquila. Nada que representasse o desespero que me cortava a alma. Passei pelo parapeito da janela, e, pelo lado externo, andando agarrado à parede, rumo à janela que me permitiria atingir meu alvo.

Adentrando no camarote, visualizei-o. O homem que eu mais odiava no mundo. Queria poder matá-lo, e ressuscitá-lo, apenas para então matá-lo novamente. Tal sentimento era totalmente incompatível com o Credo; odiar um inimigo afeta nossa capacidade de julgamento. Mas, a minha missão era eliminá-lo; por que não juntar o dever à satisfação pessoal que isso me traria?

Com o silenciador devidamente instalado, saquei a pistola e avancei, agachado. Lenta e silenciosamente, diminuía a distância que havia entre nós. Olhei para meu antebraço esquerdo. Queria fazê-lo com a lâmina oculta; corrê-la pela garganta do maldito, dar-lhe um sorriso vermelho de orelha a orelha. Já estava perto o suficiente para atacar. Ele apoiou sua cabeça na poltrona. Em seus ombros, encostava sua cabeça a mulher.

Vê-la drenou-me as forças como a areia drena um copo d’água despejado no deserto. Congelei meus passos, e pausei. Tudo à minha volta pareceu parar instantaneamente; no universo, apenas nós existíamos. Vi-a lançar os braços sobre o pescoço do homem, abraçá-lo e beijá-lo, requisitando proteção. Embalava-se e destilava amor sobre o homem cuja vida eu ceifaria em poucos minutos.


Eu falhei. Simples assim. O melhor assassino do Credo ficou imóvel como uma estátua, silencioso como uma sombra na escuridão, ali permaneceu. A peça encerrou-se, todos se foram, e o homem, junto da mulher, abraçados, ardendo de paixão, saíram do alcance dos meus olhos. O prédio foi fechado, e eu ainda estava na minha posição. Desabei, e chorei. Silenciosa e copiosamente. Eu sabia que a amava; amava-a perigosa e perdidamente, e odiava-a por isso. Queria mata-lo, e não consegui; iria enfrentar agora o resultado da minha fraqueza. Abandonei o recinto, e dirigi-me à base dos Assassinos.