CALE
Embora o céu estivesse coberto de nuvens, não havia sinais
de que choveria em breve; no máximo poucas gotas de garoa se atreveriam a tocar
o solo. Eu, porém, sabia que dentro de mim uma tempestade tomava minha mente e
meu coração. Um turbilhão de diferentes pensamentos, grande parte deles
contraditórios. Mas, havia uma missão, o respeito ao Credo; e havia também o
que estava no meu coração. Aquilo doeria nela, e doeria também em mim.
Olhei novamente para o teatro. Era uma construção nova,
imponente, porém com uma arquitetura remontando ao barroco. Isso facilitaria as
coisas, de certa forma. Ironicamente, a peça encenada na abertura da casa seria
renascentista. Um interessante conflito homem x Deus, sendo que, nesse caso, a
casa divina abrigaria a representação do culto ao humanismo.
Percebi, de relance, que a construção impressionava também a
outras pessoas, que paravam e se demoravam a observar o prédio. Alívio; não
seria interessante chamar a atenção ali. Tirei o smartphone do bolso do casaco,
olhei novamente a foto do meu alvo: não havia engano, como os dados abaixo da
foto me confirmavam. Eu teria que abatê-lo.
Com um sorriso que era um misto de amargura e resignação,
guardei-o no bolso da calça. Avancei pelas portas, onde entreguei meu ingresso.
Apesar da presença de vários políticos, empresários, celebridades e outras
figuras públicas, a segurança era irrisória. Certamente que um leigo acharia
que o número de seguranças contratados era exagerado. Mas não havia detectores
de metais, e em poucos minutos pude acreditar que os coitados eram totalmente
incompetentes. Um ou dois chamaram minha atenção, embora eu realmente esperasse
que não precisasse confrontar nenhum deles. Quanto menos sangue, melhor.
Dirigi-me rapidamente ao toilette, onde entrei em um dos
reservados. Rapidamente conferi meus itens: granada de pulsos elétricos,
granada de luz, pistola, silenciador. Sob o pulso do casaco, a arma-símbolo do
Credo: com um pequeno movimento de pulso, ouvi o aço correr e o brilho
inconfundível da lâmina oculta.
Ajeitei novamente minhas roupas e armas, de maneira a
ocultar essas últimas, e dirigi-me ao meu lugar na plateia. Sinceramente não me
lembro da peça... Sei que era algum discurso humanista com uma ou outra
blasfêmia, mas nada que me prendesse a atenção. Ou prenderia, se não fosse o
peso que vergava sobre meus ombros naquele dia. Restou-me a memória de um ator
que cantava e declamava a plenos pulmões com a voz de um Pavarotti (não, não
era ópera), e uma bela atriz, cujos olhos azuis brilhavam lindamente.
Claro que no momento nada disso era percebido por mim.
Depois de alguns minutos de iniciada a peça, considerei que esta já chamava
atenção suficiente para servir aos meus propósitos. Levantei-me e saí, não sem
antes ter uma breve discussão com um senhor que se irritou por eu incomodá-lo.
Assegurei-lhe que ficaria feliz em acertar as coisas de maneira mais primitiva
se ele quisesse me acompanhar até o beco atrás do teatro. Como ele espantou-se
e calou, considerei que ele deu o caso por encerrado.
Fiz como se fosse sair, mas, ao chegar próximo à bilheteria,
entrei por uma estreita porta que dava para a sala da gerência. Vazia, pois o
gerente estava empolgado com a casa cheia e em bajular os políticos ali
presentes. Isso me facilitou muito meu trabalho: rapidamente identifiquei qual
o camarote em que meu alvo estava, e saí rapidamente. Um segurança chegou a me
ver, mas escondi-me atrás de um vaso. Quando passou, agarrei-o por trás, sufocando-o;
ele ficaria inconsciente por algumas horas, e, quando acordasse, eu já estaria
longe dali. Dessa forma, guardei o corpo em um lugar em que não chamaria a
atenção. Olhei pra mim mesmo: eu definitivamente não queria derramar sangue
naquela noite.
Entrei em outra sala que estava aberta, atravessei-a e abri
a janela. O vento gelado da noite soprou-me o rosto. Olhei para a cidade:
prédios iluminados, pessoas passeando pela rua, uma noite típica e tranquila.
Nada que representasse o desespero que me cortava a alma. Passei pelo parapeito
da janela, e, pelo lado externo, andando agarrado à parede, rumo à janela que
me permitiria atingir meu alvo.
Adentrando no camarote, visualizei-o. O homem que eu mais
odiava no mundo. Queria poder matá-lo, e ressuscitá-lo, apenas para então matá-lo
novamente. Tal sentimento era totalmente incompatível com o Credo; odiar um
inimigo afeta nossa capacidade de julgamento. Mas, a minha missão era
eliminá-lo; por que não juntar o dever à satisfação pessoal que isso me traria?
Com o silenciador devidamente instalado, saquei a pistola e
avancei, agachado. Lenta e silenciosamente, diminuía a distância que havia
entre nós. Olhei para meu antebraço esquerdo. Queria fazê-lo com a lâmina
oculta; corrê-la pela garganta do maldito, dar-lhe um sorriso vermelho de
orelha a orelha. Já estava perto o suficiente para atacar. Ele apoiou sua
cabeça na poltrona. Em seus ombros, encostava sua cabeça a mulher.
Vê-la drenou-me as forças como a areia drena um copo d’água
despejado no deserto. Congelei meus passos, e pausei. Tudo à minha volta
pareceu parar instantaneamente; no universo, apenas nós existíamos. Vi-a lançar
os braços sobre o pescoço do homem, abraçá-lo
e beijá-lo, requisitando proteção. Embalava-se e destilava amor sobre o homem
cuja vida eu ceifaria em poucos minutos.
Eu falhei. Simples assim. O melhor assassino do Credo ficou
imóvel como uma estátua, silencioso como uma sombra na escuridão, ali
permaneceu. A peça encerrou-se, todos se foram, e o homem, junto da mulher,
abraçados, ardendo de paixão, saíram do alcance dos meus olhos. O prédio foi
fechado, e eu ainda estava na minha posição. Desabei, e chorei. Silenciosa e
copiosamente. Eu sabia que a amava; amava-a perigosa e perdidamente, e odiava-a por isso. Queria mata-lo,
e não consegui; iria enfrentar agora o resultado da minha fraqueza. Abandonei o
recinto, e dirigi-me à base dos Assassinos.